terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Estréia de 'Better Call Saul'

 


Como fã de Breaking Bad, depois de ter assistido a toda a série do Walter White eu estava intrigada com a promessa de uma série que traria como personagem principal o conhecido advogado Saul Goodman. Desde a época de BB, se comentava que o personagem poderia render um programa sozinho e foi em cima dessa premissa que as mentes por trás de Breaking Bad,  Vince Gilligan e Peter Gould criaram Better Call Saul.

O texto que apresento a seguir é uma análise sobre o primeiro episódio "Uno", sob a ótica do universo de BB, então esperem por SPOILERS. Meu objetivo principal não é analisar tanto o enredo da série, mas sim seus elementos de composição, a começar pela introdução.


Gene - o gerente

A música que toca ao fundo é antiga, com o chiado de um disco de vinil, deve datar da década de 50. A imagem, em preto e branco, é de uma massa sendo espalhada pela tela. Em seguida vem o recheio de canela. Estamos na cozinha de uma rede de rolinhos de canela americana. Cenas de uma preparação metódica, feita em etapas, seguindo um roteiro que já é rotineiro. A mais clara ligação com as cenas de Walter e Jesse preparando o crystal meth. Isso é apenas o começo das relações com Breaking Bad.

O Walter White do momento.

Com um óculos e bigode, cabeça calva, com um crachá de gerente (sob o nome de Gene), vemos o rosto conhecido, ainda que disfarçado de Saul Goodman. O que ele faz nesse lugar? Em que ano estamos? As respostas não parecem claras à princípio, mas logo que a introdução se desenrola, as respostas começam a aparecer. Saul está apático, de cabeça baixa, desconfiando dos olhares mais atentos. Segue com sua rotina de preparação, serve aos clientes, faz seu trabalho. Ao chegar em sua casa, ele pega uma fita VHS e assiste a seus comerciais de TV bregas que vimos diversas vezes em BB. A resposta para todas as nossas perguntas ficam evidentes. As cenas em preto e branco, que compõem toda a introdução do episódio, e da série, se passam no tempo presente.

Existem mais algumas pistas e paralelos apenas nessa introdução. A Cinnabon, confeitaria ao estilo fast-food é real, ao contrário da ficcional Los Pollos Hermanos de Gustavo Fring. A rede inclusive ofereceu algumas promoções aos seus clientes em comemoração a estréia de BCS nos EUA. Mas além de nos situar no espaço (estado de Nebraska) e no tempo, esse conjunto de cenas nos revela a situação de Saul numa vida sem graça (motivo das cenas em PB) e rotineira (cenas da preparação), onde o único momento de valor está relacionado com o passado, nas cenas (coloridas) dos comercias do advogado, apenas refletidas nas lentes de seu óculos disfarce.


Casos perdidos

Assim como em BB, a abertura é simples e curta, revelando um pouco do clima da série. Ao contrário de Walter, Saul sempre foi muito mais carismático e falador. É o tipo de pessoa que ganha a vida convencendo as pessoas. Mas isso não é tão natural como pensávamos, ele passa boa parte do tempo ensaiando o que e como vai dizer seus discursos de convencimento. E o que fica claro é que apesar de Saul (ou melhor Jimmy McGill) saber ler as pessoas e manter uma posição de convicção, ele ainda é muito inseguro (bem apresentado na cena do tribunal). Lhe falta classe e bom senso, o que fica bem evidente diante do advogado Howard Hamlin em sua firma de primeira linha.

O caso dos garotos nos remete aos momentos de ultra violência de BB.

Jimmy não é um advogado bem sucedido. Está totalmente falido e vive com um senhor (Chuck) também advogado e igualmente falido, mas que tem a chance de receber uma grande bolada da firma de Hamlin, que ele ajudou a fundar. A relação de Jimmy e Chuck ainda não é muito clara (talvez sejam pai e filho, por causa do mesmo sobrenome), mas o que fica bem evidente nesse episódio é que a forma com que eles encaram sua profissão é bem diferente. Jimmy se foca no dinheiro, Chuck em ajudar os clientes. O que também reflete a jornada de Walter em BB - se focar apenas no dinheiro pode trazer um bom lucro, mas será por pouco tempo e terá um custo muito alto.


Onde Saul começa

A mudança de nome é algo que também começa a tomar forma. Sabemos que o sobrenome McGill faz parte da grande firma que Jimmy enfrenta, então Howard pede que Jimmy faça a mudança. Chuck recomenda algo novo, já fazendo o prenúncio do nome Saul Goodman. Apesar da evidente teimosia, percebemos que Chuck tem bons conselhos.

A casa sem luz, água e algum problema eletromagnético?

Em BB Saul Goodman não é um advogado bem sucedido como Howard, longe disso, mas também não está num estado tão crítico. Aliás é a rivalidade com Howard Hamlin que coloca Jimmy na direção de Goodman. Além do caso arrastado de Chuck, Jimmy perde um casal de possíveis clientes para Hamlin, o que o leva a um momento de explosão e a essa cena misteriosa com uma das advogadas.

Um feixe de luz na escuridão. Um trago no cigarro.


O lado malandro de Saul começa com o plano para ganhar a confiança do casal, colocando a dupla de gêmeos golpistas a seu favor. O plano não dá certo, o que acaba trazendo um novo personagem de Breaking Bad (o traficante viciado, Tuco) à tela e mais histórias da mitologia de Saul Goodman para o próximo episódio.

Tuco está de volta.


Que comecem os golpes.


Considerações finais

É claro que eu não poderia concluir essa análise sem mencionar mais dois elementos importantes do episódio, ligados à mitologia de Saul Goodman. Primeiro,  Mike Ehrmantraut. Aqui ele é apenas o caixa do estacionamento do tribunal. Podemos supor que ele está passando seus dias de aposentado ganhando um dinheiro extra (ou é apenas um trabalho em disfarce, mas acho pouco provável) . E também que ele será a pessoa que irá mudar o jogo para Jimmy, o colocando em contato com pessoas importantes e clientes mais rentáveis.

Mike deveria estar igualmente entediado.


Segundo ponto, o salão de manicures. Em BB, Goodman compra um desses salões para Walter lavar seu dinheiro da droga. Aqui ele usa uma pequena sala no porão do lugar como seu escritório.

"Água de pepino só para clientes."



Concluindo

Better Call Saul é uma série consistente. Tem o mesmo ritmo e balanço de Breaking Bad, com um protagonista que é similar e ao mesmo tempo bem diferente da série original. Aqui fazemos o caminho inverso, já sabendo o futuro do personagem, mas muito pouco de seu passado.

O episódio piloto me parece bem atrativo e convincente para assistir ao restante. Espero que essa premissa siga para os próximos episódios. Vamos conferir.



Onde: Netflix - a primeira temporada estreou ontem no Brasil e hoje (terça) já saiu o segundo episódio. A emissora anunciou o lançamento de um episódio novo todas as terças, o que é uma estratégia nova, já que praticamente todas os episódios de uma mesma temporada das séries da Netflix são lançadas de uma só vez.

Nenhum comentário:

Postar um comentário